Raya e O Último Dragão

Antes de qualquer coisa, preciso dizer. Este filme me pegou de um jeito que… vai ser difícil explicar! 

Uma coisa, porém, é certa. É um filme absolutamente NECESSÁRIO para os dias atuais,  para o momento em que todos nós estamos vivendo. Por vários motivos, entre os quais, destaco:

  • Desde bem antes da pandemia nossas redes (anti)sociais, sujeitas ao bel prazer de incertos “algoritmos”, nos oferece a opção de seguir, consumir e compartilhar somente o conteúdo daqueles que acreditam nas mesmas coisas que nós; o que, invariavelmente, acaba nos levando a viver em “bolhas” de isolamento social e fazer com que nosso limite de tolerância ao pensamento diferente do nosso seja, bom, inexistente. Ou, resumindo, se você não pensa, age, sente e acredita nas mesmas coisas que eu, você “é burro”, e “merece ser destruído” por isso. O que sempre acarreta explosões de ódio desproporcionais a qualquer “crime” cometido. 
  • Desde que eu era criança, sempre acreditei muito nas pessoas. Desnecessário dizer, portanto, que sempre me ferrei muito, muito. Caramba, você não tem noção! Muito mesmo! A alternativa, por sua vez, também não é interessante, ou seja, não confiar em ninguém, nunca, e viver sob uma redoma de medo e desconfiança, “atraindo” justamente pessoas e situações que você mais odeia. Então, o resgate da confiança no outro é um exercício diário que caminha a passos de tartaruga. E muitas vezes nos faz questionar por que estamos tão cansados, o tempo todo, mesmo sem fazer nada durante o dia. Ou, como diria o Woddy Allen, “não preciso fazer atividade física – minha neurose já é aeróbica”. 
  • A sensação de estar “parado no tempo” e não conseguir vislumbrar uma “luz no fim do túnel” ganha neste filme uma alegoria perfeita. A metáfora de ser incapaz de sair do lugar, de se mover para transformar a própria realidade é algo que certamente irá tocar as almas mais sensíveis aqui.

E chegamos, finalmente, ao ponto principal. Raya e o Último Dragão, além de ser uma animação tecnicamente de encher os olhos, com detalhes belíssimos que extrapolam o que já era praticamente de cair o queixo em produções anteriores – atente-se, por exemplo, aos efeitos de ÁGUA aqui – consegue ainda, em momentos breves, sutis, ser de uma delicadeza ímpar. 

Uma troca de olhares, a expressão de reconhecimento e empatia diante de uma perda, a compreensão do luto mesmo diante do confronto inevitável com o “inimigo”, enfim, tudo isso são toques igualmente “de encher os olhos”, porém… por outros motivos.

MENSAGEM PODEROSA

Então, qual a maior lição deixada pelo filme? Sem dar nenhum tipo de “spoiler” da trama, acredito que esta seja uma espécie de obra definitiva sobre o tão necessário rompimento das “bolhas” às quais nos acostumamos a viver dentro e, finalmente, um exemplo de como a sede de poder pode nos afastar de nós mesmos, porém realizada aqui de uma maneira longe de ser piegas e infantil. Pelo contrário! Acompanhar a jornada da personagem principal é um convite à reflexão diante das traições, adversidades, frustrações e dificuldades da vida. 

Personagens secundários absolutamente cativantes contribuem, naturalmente, para nosso investimento emocional ao longo da trama. Algo que “Soul”, por exemplo, falhou miseravelmente em fazer, até porque acredito que esta nem tenha sido sequer uma preocupação de seus realizadores.

E já que tocamos neste ponto, também ao contrário de “Soul”, temos aqui pelo menos algumas cenas mais leves, divertidas, até engraçadas, que se encaixam naturalmente ao longo das viagens de Raya, sem parecer ‘forçadas’ demais. Mais um ponto para um roteiro bem escrito e bem executado, sem dúvida!

Claro que existem problemas aqui e ali, porém são tão pontuais que, ao menos para mim, não comprometeram em nada a imersão e o sentimento de “quero mais” deixados após os créditos finais.

Sim, fiquei esperando alguma cena pós-créditos. A Marvel nos deixou mal-acostumados, não é meus amigos? Fazer o quê? 

De qualquer forma, fica aqui a minha recomendação para quem estiver afim de assistir a uma animação daquelas que nos deixa extasiados e que, ao mesmo tempo, nos convida a refletir imediatamente sobre o mal que estamos fazendo enquanto propagadores (muitas vezes inconscientes) da intolerância, da desconfiança e do medo de sairmos das nossas próprias bolhas, do nosso próprio “isolamento pessoal”.

Não me lembro de ter visto, recentemente, uma “moral da história” tão impactante e emocionante (em vários níveis) quanto esta. Ok, talvez lá atrás, em ‘Procurando Nemo‘ (2003).

Raya e O Último Dragão estreia dia 23 de Abril do Disney Plus. Pagando-se uma taxa obscena e surreal de quase 70 reais, pode-se ver o filme em antecipado entre os dias 05 e 19 de Março. Ah, e se o pandemia permitir, talvez haverá estreia nos cinemas também.

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