POKAS

Thiago Ventura – Especial Netflix – “Pokas”

Eu não tenho nada em comum com o Thiago Ventura. Nada. Nada. Nada. Mas quando eu era criança, nos anos 1980, eu brincava na rua com meus amigos, lá no interior de Minas Gerais, algo que me familiariza um pouquinho com o clima de “quebrada” de que ele tanto fala.
Eu não entendi nada, nada, nada do jogo que ele explica no especial dele. Mas sei que o “Luquinha” só gritava “traz a Tubaína” na hora errada. E isso foi engraçado pacas.
Não tenho praticamente nenhum ponto de identificação com os termos que ele usa, não entendi a explicação do “pokas ideia” – fiquei sem saber se o termo se refere ao interlocutor ou ao “interlocutado” – e também sei que a construção de algumas cenas funcionam melhor para quem está assistindo tudo ao vivo do que para quem assiste pela tv, no conforto do sofá da sala ou na cama do quarto.
Mesmo assim, posso dizer que para todos aqueles que quiserem ter uma belíssima aula de construção de “bits” (partes) de textos, setups muito bem amarrados e punchlines que entregam uma evolução que só os anos de repetição – e portanto experiência – são capazes de trazer.
O Thiago pode ser totalmente o oposto de mim e de você em tudo. Você nem precisa necessariamente achar graça em nada do que ele faz ou fala. Não importa. O fato é que, e isso é que me motivou a escrever estas poucas linhas, o cara é muito bom. Não só naturalmente talentoso, porém exigente consigo mesmo e esforçado. Um sujeito um pouquinho mais acomodado ou conformado com o nível de sucesso que ele já tem talvez não tivesse feito nenhum esforço para entregar um show tão agradável para o catálogo do Netflix.

Engraçado X Divertido
E veja bem eu disse “agradável”. Que é, de longe, o melhor elogio que um show de comédia pode receber. Engraçado é bom, mas cansa com o tempo. Fácil perceber a diferença. Um show do Whindersson Nunes é engraçado. Você pode assistir ao mesmo show diversas vezes, irá certamente rir de coisas diferentes que nem foi capaz de compreender da primeira vez, pois estava rindo de outras coisas. O riso, como tudo que você faz na vida, gasta energia. Vai indo, cansa.
O Thiago entrega algo diferente, corajoso até. Em tempos de “cancelamento” de pessoas, de patrulha do politicamente correto, de frescuras e “mimimis” infinitos, ele faz o show para agradar, em primeiro lugar, a ele mesmo. É o passo na direção certa para fazer a comédia stand-up nacional evoluir e se tornar aquilo que já é nos Estados Unidos. O “espaço seguro” para as pessoas realmente ouvirem aquilo que realmente estão pensando. Sem represálias, sem frescura. O lugar onde você pode, sem medo, rir de si mesmo ou pelo menos questionar alguns comportamentos, colocando à prova nossos conceitos e preconceitos.
Longe de ser uma discussão filosófica e existencial – haverá, um dia, uma turma de comediantes nacionais gabaritados para isso – o pontapé inicial vem sendo dado e precisa continuar crescendo. E como fazer isso?
Simples. Como qualquer ser vivo cresce na natureza. Enfrentando obstáculos, resistências, frustrações, medos, dando “a cara à tapa”, não querendo agradar a todos da platéia o tempo todo, sendo verdadeiro com você mesmo(a) e honesto o suficiente para falar a verdade. Mas que verdade? A única a que você tem direito de expor, verbalizar. A sua. E, sim, ela sofre mudanças drásticas com o tempo, e tudo bem.

Eu, em 2008. Novo, magro, sem noção da realidade. Fazia o que amava, porém nunca era pago.

Memória
A aventura está apenas começando. Estamos a anos luz dos americanos em termos de desenvolvimento desta indústria, deste mercado, deste nicho, desta “bolha”.
Encontrei outro dia a “carteirinha” que fiz em 2004, após redigir todo o regimento interno da “Associação dos Novos Humoristas”, a “ASNOH”. Já tive projeto de Intercâmbio de Comédia Stand-Up aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura, em uma época em que toda a verba disponível para o setor ia invariavelmente para o bolso dos artistas globais. Desnecessário dizer, portanto, que não consegui captar o valor mínimo para a realização do projeto, algo que me entristece até hoje.
Tanto a “Associação” quanto o projeto aprovado são sonhos agora distantes, decepções que levo ao longo da vida, sem ter encontrado ainda substitutos à altura capazes de me motivar novamente, mas tudo bem.
Quando assisto a um espetáculo como o “Pokas”, do Ventura, ou qualquer coisa do Afonso Padilha, do Rodrigo Marques e de tantos outros, posso me iludir dizendo que, pelo menos por um tempo, fiz parte deste universo de possibilidades que só a comédia stand-up é capaz de proporcionar.
Acredito que do alto de suas famas, privilégios e fortunas, eles jamais poderão ter conhecimento ou noção do impacto causado na vida de milhares de pessoas, anônimas, que voltaram a respirar algo levemente semelhante à esperança de um dia melhor, graças à graça que eles nos presenteiam com seus shows, dia após dia, com ou sem pandemia.
Se dependesse de mim, já faria apresentações ao estilo “Bill Burr”, em um nível de indignação com o status quo que, certamente, muitos de nós brasileiros não estamos acostumados a ouvir. Enfim, sonhar ainda é de graça.

Tá aí o Diário Oficial da União número 185, do dia 24 de Setembro de 2008. (uma quarta-feira).

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