Lições do Humor

Aprendizados
Em uma época sombria, onde eu ainda achava possível ser reconhecido profissionalmente como comediante, descobri que a maior parte das pessoas não vê valor algum em conhecer um comediante, outras nem aceitam que usemos o termo ao preencher o campo “ocupação” em um cadastro qualquer (ex: hotel), e uma minoria pode até fingir certo interesse, porém se recusa terminantemente a ter qualquer tipo de relação com você pois sabe quem pagará a conta ao final da noite.
Existem também pessoas – atualmente, em número alarmantemente considerável – que por algum motivo obscuro se julgam “superiores” a todos os demais, então vamos logo à narrativa do “episódio”.


PESADELO REAL
Trabalhar assumidamente como profissional do humor, para um reles mortal, não tem qualquer resquício de glamour. Em uma única ocasião, quando achei que tivesse, fui surpreendido por uma plateia elitista, predominantemente composta por hóspedes de um hotel de luxo onde me apresentava. Eles cometeram a pior, mais cruel – e covarde – forma de agressão imaginável contra um artista: pediram o dinheiro de volta, ameaçaram entrar com processos judiciais, quiseram chamar a polícia e criticaram veemente e negativamente o conteúdo de um show que não haviam sequer compreendido. O pior pesadelo de qualquer humorista havia se concretizado ali, comigo, naquele fatídico e melancólico final de semana, em um “grande” hotel no interior de Minas Gerais, de onde fui banido por toda a vida pela “simpática” gerente. O ano era 2010. Passados 10 anos da tragédia, e 14 de (tentativa de) carreira profissional, ficaram algumas lições importantes:


Conseguiram “matar” minha vontade de fazer as pessoas rirem, o que por um lado foi ótimo pois tenho mais tempo para lavar a louça, varrer a casa, colocar roupas na máquina para lavar; enfim, mais atividade física;
No ano seguinte ao da tragédia (2011), por continuar acreditando em meu trabalho, tive a oportunidade de produzir alguns textos por encomenda e ser convidado a me apresentar em várias cidades de todo o país, onde aí sim pude, enfim, vivenciar um pouquinho o tal “glamour” a que tanto associam aos artistas – sem ter que devolver o dinheiro no final;
Qualquer apresentação, palestra, show ou evento que eu fizer jamais será equiparado, em termos de níveis de humilhação, àquele de 2010. Se o público gostar, ótimo. Se todos detestarem, porém me deixarem ir embora com o cachê, ótimo também!;
Alguns cuidados obviamente podem ser tomados para evitar que o trauma se repita. Conhecer bem o público antes da apresentação é primordial. Entender que tipo de expectativa foi criada em torno daquele evento, como minha participação foi previamente divulgada, de que forma fui apresentado àquelas pessoas e o que elas provavelmente estarão esperando de mim passaram a ser preocupações essenciais. Tais questões, inclusive, podem ser verbalizadas logo que o microfone estiver sob meu comando;


“Quebrar o gelo” antes de começar. Conheço alguns humoristas e palestrantes profissionais que simplesmente não se importam com isso. Possuem um nível de confiança invejável e uma autoestima aparentemente autossustentável, portanto infinita. Para eles deve ser suficiente olhar no espelho antes do show, dar aquela piscadinha e apontar com os dedos em forma de “revólver engatilhado” para a própria imagem, como se dissessem “go get them, tiger!”. Como sei que meu caso é um pouco diferente, preciso me lembrar, sempre, de conversar com aquelas pessoas antes de qualquer coisa. O comediante Mitch Hedburg, já falecido, em uma de suas apresentações para o Comedy Central, após concluir uma piada e não perceber nem mesmo um sorriso de constrangimento, já foi logo avisando: “Ah, qual é! Vocês vão ter que gostar um pouquinho mais de mim do que isso!”.

Nós X Eles?
Até então eu partia do princípio e da crença filosófica (quase religiosa) de que “o público não é burro”. Felizmente o tempo e a experiência me provaram que eu estava errado! Pude parar de me culpar integralmente por (quase) todos os fracassos, por (quase) todas as apresentações ruins e por toda ausência de risos pré-, durante ou pós-shows. Que alívio! Afinal de contas o humor, assim como a ópera, a dança e a pintura abstrata não é para todos!
Compreendi, finalmente, o inestimável valor da expressão “ser fiel a você mesmo”. Para meu alívio, descobri que a necessidade de ser aceito a partir de um tipo muito específico de humor pode ser trabalhada, desde que a motivação seja correta.
A “motivação correta”, caso alguém esteja se perguntando, é uma mistura de inspiração intelectual, carências emocionais diversas e um senso de propósito “maior”, de ordem espiritual, religiosa ou “divina”, como quiserem chamar.
Na alma de qualquer comediante ou humorista de verdade coexistem e coabitam “seres” muito loucos, que só deveriam ser mantidos em sociedade sob a supervisão de um adulto. O olhar crítico, irônico, sarcástico, ingênuo, infantil, adolescente, enfim, todos eles estão em constante atividade em quaisquer circunstâncias da nossa vida. Por isso que a gente, de vez em quando, tem crise de riso em velório, chora em filme de comédia, pensa em piada durante o sexo e por aí vai.
Resta-nos a remota chance de não falarmos o que estivermos pensando no momento errado, para as pessoas erradas. Quem sabe assim evitaremos, talvez, a devolução do “cachê” mais valioso para nós. A sua risada. Fica a dica.

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