Sobre Videogames e Sonhos

Ghosts of Tsushima – PS4 (imagem: divulgação)

Muitas pessoas que conheço, ao serem perguntadas se conhecem videogame, respondem logo. “Sou do tempo do Atari; só conheço os joguinhos daquela época”. E apesar de me identificar com tal afirmação, em termos, posso complementar que também conheço diversos jogos dos sistemas 8 e 16 bits, além do DreamCast, de todos os Playstations, do GameCube, do Xbox e, finalmente, Playstation 4 e Xbox ONE. Não creio que eu vá ter condições, tão cedo, de adquirir os aparelhos da nova geração, graças a situação revoltante dos preços praticados no Brasil. Só de impostos cobrados, o valor sobe para mais do que o dobro do que é praticado no resto do mundo. Porém, este é um tema para outra conversa.

Em outras palavras, nunca deixei de acompanhar a evolução dos tais “joguinhos”, que hoje representam uma indústria respeitável e desde 2007 superam, por exemplo, o faturamento da indústria cinematográfica.

Qual o valor deste tipo de conhecimento? No meu caso específico – e só hoje, aos 38 anos de idade, tenho alguma compreensão disso – foram vários os benefícios. Em vez de aprofundar-me em sentimentos auto destrutivos, depreciativos, crises depressivas, dependências químicas, psicológicas, sexuais (não que eu tenha sido bem sucedido em evitar tudo isso) acabei “mergulhando” nos enredos, mistérios, aventuras e universos criados nos games para entreter o jogador.

Desenvolvi e aprimorei a fluência na língua inglesa, pois queria muito entender as nuances da história, o desenvolvimento das personagens, as reviravoltas da trama etc. Desenvolvi imensamente o raciocínio lógico na resolução de puzzles (quebra-cabeças) que apareciam e aparecem em vários games antigos e atuais. Criei um mecanismo de defesa contra muitas frustrações, ao transformar acessos de fúria daqueles “chefões” impossíveis de se matar, que teimavam em “ressuscitar” cada vez mais poderosos, em habilidades tais como a criação de novas estratégias, o domínio de novas habilidades, utilização de novos itens etc. Enfim, fui – de forma inconsciente – obrigado a transportar todo o aprendizado contido nos jogos para as vivências do mundo real, nas tarefas do dia a dia e na superação de obstáculos, medos, traumas e limitações pessoais que muitas vezes eu nem sabia que existiam. 

Por isso toda vez que vejo qualquer matéria em jornal, internet, noticiário local etc. dizendo que a “culpa” de um determinado ato violento “é do videogame”… Bom, vamos dizer que se isso fosse verdade, algumas centenas de milhares de homicídios já teriam sido cometidos enquanto você lê estas linhas. O Coronavírus amargaria um distante e humilhante segundo lugar perto do número de “mortes por motivações videogamísticas”. A realidade, felizmente, não tem nada a ver com tal silogismo barato.

“Mais um para a lista”, eu costumo dizer, sempre que termino um jogo novo. Por volta do final dos anos 90, comecei a fazer uma associação mental que me auxilia até hoje. Não é possível “passar de fase” repetindo o mesmo “apertar frenético de botões” e torcer para um milagre. Um dos meus irmãos fazia isso, e até certo ponto “dava certo”, como a hilária regra do “piscou, foi”, ou seja, quando o personagem recebia algum dano e ficava “piscando”, ele tinha alguns preciosos segundos de “invencibilidade” para chegar mais longe na fase. Bons e saudosos tempos!

Aqui é fundamental fazer uma ressalva. Não sou rico. Nunca fui. Não venho de uma família nobre, de posses, nem sou parente de ninguém famoso. Até a época do Playstation 3 eu ainda dependia dos meus pais para comprar os videogames para mim. Esta realidade só mudou em 2011, quando aos 34 anos tive a chance de receber pela primeira vez por um trabalho e fui capaz de adquirir um Xbox com meus próprios ganhos pessoais. 

Esta ressalva é importantíssima para que o(a) leitor(a) entenda o seguinte: a epítome da vitória, para mim, era ter condições de comprar um Playstation 4, sonho que até então julgava impossível. Na tentativa de realizar este “objetivo maior”, tive que romper diversos vínculos afetivos com a “antiga” geração, a saber, o Playstation 3 e o Xbox 360. Ambos traziam (trazem ainda) uma infinidade de lembranças agradabilíssimas, de encontro com amigos, parentes, familiares, muitas risadas e diversão. Mesmo assim, acabei tendo de anunciar todos os aparelhos, jogos e acessórios em sites de venda na internet e, para minha total surpresa, em menos de 24 horas já havia vendido tudo. 

O “tão sonhado aparelho”!

Tive condições de comprar o tão sonhado aparelho. Então, fica aí a “moral da história”: jamais desista dos seus sonhos. Se por um lado conquistei algumas coisas somente aos 38 anos, que outros conquistam aos 13, 14, 15, não importa. Isto só faz com que eu “continue querendo” o que já tenho. Este é o grande segredo, acredito: continuar querendo depois que já se conquistou algo (ou alguém). Afinal, em uma sociedade de consumo onde tudo (e todos) são altamente descartáveis, nada melhor do que se permitir ter prazer, alegria e satisfação com o que se tem. Fica a dica.

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