A esperança, esse sabonete

A Esperança é um tipo de sabonete. Quando consigo cobrir meu corpo com ela, sinto que toda “sujeira” acumulada das frustrações e oportunidades desperdiçadas é passível de eliminação rápida – e o perfume da motivação se faz presente. Quando tento, desesperadamente, agarrá-la com as mãos, ela escapa e voa longe, além de ficar difícil apanhá-la no chão molhado das incertezas.

Tanto a Esperança quanto o sabonete podem se acabar quando a gente menos espera, ou quando mais precisamos. Aí, pelo menos, o sabonete leva vantagem. Com algum dinheiro é possível comprar outro(s). Dinheiro nenhum compra esperança, para aqueles que já a perderam. Posso querer ter uma casa própria algum dia, conseguir dinheiro para isso, porém, quem garante que me sentirei plenamente realizado e feliz depois disso? O dinheiro é incapaz de me garantir que, uma vez comprada e construída a casa, serei feliz ali. Podem surgir arrependimentos de toda sorte. Culpa de nós, pretensos artistas. Perfeccionistas ao extremo. Somos uns chatos, isso sim. Mas até um chato ainda pode cheirar bem depois de uma bela “ensaboada”.

Perigo da Sujeira na Alma

A falta prolongada do uso de sabonete pode virar costume. O indivíduo cria, dessa forma, uma “casca” protetora – aqui, no sentido nojento do termo – que o impede de sentir o frescor e o alívio (sem viadagem) da eliminação das impurezas da pele. Infelizmente, no caso da esperança acontece a mesma coisa. Intimamente ligada à fé, tal qual o sabonete à água, a falta de esperança provoca, em longo prazo, uma “casca” de indiferença e apatia na pessoa. E mesmo quando algo agradável, bom ou interessante acontece, que antes poderia transmitir alegria e motivação, o sujeito agora é incapaz de sentir qualquer coisa ou simplesmente ignora.

A assepsia da pele é importante, apesar de alguns motoristas de ônibus, taxistas e trabalhadores braçais provarem que é possível conviver em sociedade mesmo fedendo. A limpeza da alma, porém, é essencial. E assim como a matéria-prima do sabonete não é vista com bons olhos – e, convenhamos, até com certo asco – a matéria-prima da esperança – a ilusão – tem também um sentido bastante pejorativo, ingênuo até. Vira e mexe alguém diz “ah, tadinha, tá grávida de novo? Ô menina iludida essa…”. Ora, vale ressaltar que não faço apologia alguma à gravidez na adolescência, apesar de isso já ser considerado “comum” entre as famílias de classe baixa, muito baixa, hiper baixa, média alta, média besta e até na elite. Mas, que diabos, não é à toa que se diz que “a ignorância é uma bênção”. 

Adaptação

Investigar a origem de todos os problemas pessoais e estar sempre bem informado sobre tudo gera angústia. E se por acaso perguntássemos às pessoas que consideramos “iludidas” se elas se sentem felizes, realizadas? Será que ouviríamos cem por cento de “nãos”? Acho pouco provável. Temos uma capacidade impressionante de nos adaptarmos à realidade, por pior que seja. Sobrevivemos até – imaginem! – à total falta de esperança. Alguém neste estado não é exatamente uma boa companhia, mas sobrevive!

Dizem que todo indivíduo “morre” três vezes durante a vida, e acredito piamente nisso. A primeira vez quando perde a inocência, a segunda quando perde a ingenuidade e a terceira, a morte propriamente dita.

Por isso, preciso de ajuda. Apesar de ter sabonete, já não consigo mais sentir seu perfume. Condicionei-me a viver sem ilusões de qualquer tipo. Já é hora de eliminar essa “sujeira”, preciso me sentir “limpo” – vivo – de novo. E sei que não estou sozinho nesta carência. Muitos de nós sequer podemos identificar com clareza o que realmente acontece em nossos corações e mentes, haja visto todos os sentidos anestesiados pelos “purificadores de ar” que aí estão, tomando conta da nossa vida – mídias sociais onde todos são felizes o tempo todo, por exemplo.

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